sexta-feira, 12 de junho de 2020

"Os Inimigos Íntimos da Democracia" de Tzvetan Todorov


Notas Para a Compreensão da Política Contemporânea

No pico da crise económica global pós-2008, o historiador, filósofo e teórico literário Tzvetan Todorov dedicou-se a estudar o estado da democracia no momento presente, e os perigos a que está sujeita. Oito anos volvidos desde a sua publicação, com o mundo ocidental a assistir a uma viragem perigosa em direcção ao populismo – os Estados Unidos da América são presa do errático e falacioso Trump, o Brasil está nas mãos do lunático Bolsonaro, e até a União Europeia se vê a braços com Orbán, na Hungria, a Frente Nacional, em França, o VOX, na Espanha, ou a Liga Norte em Itália –, a actualidade e urgência das reflexões de Todorov não poderiam ser mais evidentes.

Impõe-se, antes de mais, uma definição de democracia, segundo Todorov. Para este, a democracia é o regime em que o poder pertence ao povo, no seio da qual se pode desfrutar da liberdade dos indivíduos e do direito a uma vida privada. À democracia está inerente o conceito de progresso, isto é um “melhoramento possível da ordem social, um aperfeiçoamento graças aos esforços da vontade colectiva” (TODOROV, p. 15). No regime democrático o poder é de carácter pluralista, estando distribuído entre diversas instâncias, que se querem independentes entre si. À divisão tripartida tradicional do poder em poder judicial, legislativo e executivo, Todorov junta mais dois: o mediático, pertencente à formação, e influência, da opinião pública pelos órgãos de comunicação social; e o económico, relativo à acção na sociedade derivada da acumulação de bens privados, capazes de moldar a mesma por via do investimento financeiro que, entre outras coisas, gera empregos, logo salários, a eles alocados. Para Todorov, a democracia é, resumindo, um equilíbrio constante entre todos estes ingredientes.

Tzvetan Todorov (1939-2017)

Tendo em conta o contexto histórico actual, as monarquias absolutas são uma relíquia do passado, subsistindo apenas no Vaticano, na Arábia Saudita e num punhado de estados islâmicos menores; os regimes totalitários fascistas foram derrotados há muito; e o regime totalitário comunista soçobrou sobre o seu próprio peso há 28 anos. Perante esta ausência de inimigos externos, o governo do povo só tem a temer os seus inimigos internos, que resultarão, necessariamente, de um desequilíbrio entre os ingredientes que o compõem.

Desta forma, o sistema democrático comporta um engenho interno capaz de provocar a sua própria destruição: a húbris. Isto é, uma desmesura, como Todorov prefere chamar-lhe, que consiste numa “vontade ébria de si mesma, um orgulho que convence aquele que o sente de que tudo para ele é possível” (TODOROV, p. 16). Esta desmesura surge quando se evidencia uma simplificação do plural, precisamente a característica democrática que funciona, em circunstâncias normais, como factor dissuasor de potenciais prepotências. Neste sentindo, Todorov aponta os três principais ingredientes democráticos passíveis de sofrerem de uma desmesura, o povo, a liberdade e o progresso, e liga-os aos respectivos perigos que podem constituir, caso extravasem a condição moderadora que deles se exige, o populismo, o neoliberalismo e o messianismo. Adicionalmente, podemos incluir nesta lista de perigos, a xenofobia, umbilicalmente ligada ao populismo.

A Tentação do Absoluto

Antes da própria análise dos perigos em causa, Todorov empreende um enquadramento da húbris num contexto filosófico alargado que constituirá a base da sua argumentação: a disputa teológica entre Pelágio e Santo Agostinho. Em pleno século IV, no ocaso do Império Romano do Ocidente, Pelágio despertou uma controvérsia no seio da doutrina cristã devido às suas interpretações da vontade divina e do destino do Homem, conceptualizados em torno daquilo a que chamou autonomia, ou seja, “a lei que damos a nós próprios” (TODOROV, p. 32). Segundo Pelágio, a graça divina consistia no dom do livre-arbítrio e nos ensinamentos bíblicos. Partindo destas dádivas, o Homem seria capaz de entender o curso moral da acção e segui-lo autonomamente. Tal concepção partia da visão de que toda a criação gerada por Deus é boa, logo o pecado original seria impossível, isto é, o pecado não poderia, dado que o Homem tem livre-arbítrio, ser herdado de Adão, consistiria, apenas, na imitação do seu gesto. Logo seria possível à humanidade evitar o pecado dado que tem a capacidade moral de escolher não pecar e de escolher viver uma vida santa. E, porque o Homem é feito à imagem de Deus, e “a vontade divina não conhece limites, a vontade humana pode ultrapassar todos os obstáculos” (TODOROV, p. 24).

Pelágio (c. 354-418 d. C.)

 Por seu turno, Santo Agostinho opôs à autonomia pelagiana a heteronomia, melhor dizendo, a “submissão à lei vinda de fora” (TODOROV, p. 32). À omnipotência pelagiana do livre-arbítrio, Agostinho contrapõe a força profunda do inconsciente da mente, como foco de imprevisibilidade, fonte de pulsões, desejos e intentos incompreensíveis e independentes da vontade humana. Resumidamente, “o ser que somos pode escolher o que quer – mas não escolhemos o nosso ser, não somos uma criação da nossa vontade” (TODOROV, p. 29). Assim, a vontade humana tem limites definíveis e dela não pode depender a salvação do Homem. O pecado original existe, constitui uma falha fundamental do Homem, é herdado desde Adão, e consiste, precisamente, na pretensão humana de autonomia em relação ao seu próprio destino, é ”a escolha do orgulho em detrimento da humildade, a rejeição das autoridades exteriores e o desejo de ser senhor de si próprio” (TODOROV, p.29). A salvação só poderá ser alcançada, então, através do ingresso na religião cristã, da submissão do comportamento de cada um aos preceitos da Igreja, e da confiança e fé na graça divina.

Santo Agostinho (354-430 d. C.)

 Apesar de fundamentada numa visão pessimista do humano, a interpretação de Santo Agostinho é mais inclusiva do que a de Pelágio. Este concebe o homem como um Deus em potência, possuído de uma vontade irrestrita, capaz de uma elevação pessoal às alturas da santidade imaculada. Já Santo Agostinho humaniza o Homem, reconhece-lhe as suas falhas e compreende-lhe a sua inacessibilidade à perfeição, optando por perdoar-lhe os pecados que, necessariamente, comete. Seria a interpretação agostiniana a vencer esta diatribe, que acabou com a excomunhão de Pelágio. Contudo, os ecos desta disputa percorreriam toda a história posterior do pensamento filosófico ocidental, de tal maneira que, para Todorov, cada um dos três perigos internos que a democracia contém são derivações do pelagianismo.

Os Quatro Cavaleiros do Apocalipse

Em primeiro lugar, o messianismo político, que surgiu como sucedâneo inesperado da Revolução Francesa. Com o derrube do absolutismo, onde o poder vem de uma entidade externa, concedido por obra e graça do Espírito Santo à pessoa do monarca, a Revolução Francesa empreendeu o retorno à democracia, entregando o poder ao povo. Tudo isto aconteceu numa época marcada por um “optimismo da vontade”, uma fé inabalável no progresso, melhor definido pelo pensamento de Condorcet, resumido por Todorov nos seguintes termos: “se nos aplicarmos o suficiente, poderemos erradicar o mal da superfície da Terra; [Condorcet pensa] que a marcha do progresso continuará infinitamente e que todos os homens ficarão um dia realizados e plenamente desenvolvidos” (TODOROV, p.42). Surge, então, um novo tipo de messianismo, desta feita secular, em que o messias é colectivizado na entidade povo, logo passível de ser corporizado em certos indivíduos, seus representantes, capazes de conduzir a colectividade ao objectivo último de promover o bem comum, que levará, inevitavelmente, ao estabelecimento do paraíso na Terra.
 
Condorcet (1743-1794)

O Terror, fase seguinte da Revolução, explica-se, à luz deste messianismo político, como uma consequência da aplicação do bem comum, que deverá ser imposto mesmo apesar de qualquer resistência individual, dado que o fim último a todos beneficiará, e tudo justifica. Bem assim, todas as guerras, internas ou externas, necessárias para a concretização do messianismo político são inteiramente justificáveis, porque almejam o alcance desse paraíso terreno. Desta feita, as características do messianismo político podem definir-se nos seguintes termos: “programa generoso; repartição assimétrica dos papéis, sujeito activo de um lado, beneficiário passivo do outro – a quem não se pede a opinião; meios militares postos ao serviço do projecto” (TODOROV, p. 49). Todavia, uma consequência imprevista desta doutrina será a tentativa de fusão do poder temporal e do poder espiritual na criação de uma autêntica religião política, corporizada na Festa do Ser Supremo, organizada e teorizada por Robespierre. É esta a origem das teocracias contra-revolucionárias que se opuseram a esta doutrina, como o caso do Irão após a Revolução Iraniana de 1979.
 
Festa do Ser Supremo, de Pierre-Antoine Demachy (1794)

Todorov divide a história do messianismo político em três vagas. A primeira, imediatamente a seguir ao seu surgimento, durante a Convenção, foi a vaga das guerras revolucionárias e coloniais, que abarca todo o século XIX. Pretendendo, inicialmente, espalhar a boa nova messiânica por todos os povos europeus, a França abraça com vigor as guerras com que a ameaçavam, e utiliza-as a seu favor para impor a doutrina do estabelecimento do paraíso na Terra. Já na fase final da Revolução Francesa, com a invasão do Egipto por Napoleão, e durante todo o século XIX, primeiro a França, depois as nações europeias como um todo, converter-se-ão ao ideal messiânico de levar a civilização e o progresso ilimitado aos povos “bárbaros”, ou “inferiores”, de África, da Ásia, e da Oceânia.

Uma segunda vaga, o projecto comunista, nascerá de uma nova visão adulatória da ciência, o cientismo, que parte do princípio de que o “mundo pode ser integralmente conhecido; que, por conseguinte, pode também ser transformado segundo um ideal; e que este, em vez de ser livremente escolhido, decorre do próprio conhecimento” (TODOROV, p. 51). Daqui sucede a noção de que a história detém implicitamente uma direcção predeterminada e inexorável, e que a sua análise implica um estabelecimento da lei pela qual se rege. Esta lei será, assim, a luta de classes, onde se resume toda a interacção social ao longo da história, consistindo num combate interminável entre exploradores e explorados, isto é, quem conquista o poder e dele se serve para explorar os outros, e quem, necessariamente é explorado pelos primeiros, dado não deterem os meios de produção. Tudo se subordina à luta de classes, e não há “qualquer categoria universal: nem moral, nem justiça, nem ideias, nem civilização […], nenhuma religião, nenhuma tradição” (TODOROV, p. 50) que se lhe escape. Desta forma, o fim último do projecto comunista será o desaparecimento de todas as diferenças de classe, através da abolição da propriedade privada, e da concentração dos meios de produção nas mãos do Estado, de onde decorre que será necessária uma “abolição” da burguesia proprietária. Tendo por base este ideário, que, mais uma vez, pretende instaurar outro paraíso na Terra, e após o sucesso da Revolução de Outubro de 1917, levando à criação da URSS, seria este o messianismo político que ocuparia boa parte do século XX.
 
Marx e Engels, teóricos do comunismo

Com a queda da URSS, em 1991, o messianismo político metamorfosear-se-á numa nova vaga, afectando agora as democracias modernas, nomeadamente os EUA e as nações aliadas da NATO, naquilo que Todorov ironicamente designa por “impor a democracia pelas bombas” (TODOROV, p. 57). Esta nova vaga messiânica pode ser definida como um neocolonialismo, na medida em que nasce no seio das nações ocidentais e pretende exportar o bem democrático civilizador para o exterior, já não direccionado aos “bárbaros” inferiores, mas, desta feita, aos povos oprimidos por regimes ditatoriais repressivos. A sua primeira manifestação revelou-se na guerra do Kosovo, de 1999, fundamentada por um novo conceito, o “direito de ingerência”, que permite aos Estados ocidentais intervir em situações de violação grave dos direitos humanos em Estados infractores. Após o 11 de Setembro de 2001, e a guerra ao terrorismo subsequente, encetada pelos EUA, surgiu o conceito de guerra preventiva – que justificou tanto a guerra do Iraque como a guerra do Afeganistão – onde os Estados democráticos outorgam a si próprios o direito de atacar antecipadamente uma ameaça à estabilidade nacional, levando na bagagem a democracia. Mais recentemente, com as guerras da Líbia e da Síria, vimos em acção uma derivação do “direito de ingerência”, a “responsabilidade de proteger” certos grupos de rebeldes e/ou minorias étnicas em detrimento do Estado opressor, com vista à democratização da região.

Em segundo lugar, o neoliberalismo, que também retira as suas raízes da Revolução Francesa, particularmente, do surgimento do indivíduo como entidade separada do colectivo. Tal como o próprio nome indica, trata-se do retomar dos ideais do liberalismo clássico, através da conceptualização de Friedrich von Hayek, nos anos 1930, como reacção à social-democracia de inspiração keynesiana, mais tarde retomada por Milton Friedman naquilo que Todorov designa por ultraliberalismo.
 
Friedrich von Hayek (1899-1992)

O nascimento do indivíduo como entidade autónoma veio encará-lo como a medida de todas as coisas, sendo o ponto de partida e de finitude da soberania, existindo esta em função do colectivo, que é, na verdade, um conjunto heterogéneo de indivíduos atomizados, e terminando quando começa a vida privada de cada um. Neste sentido, o neoliberalismo preconiza a liberdade do indivíduo como fim último da sociedade, capaz de levar ao desenvolvimento pessoal, e esse desenvolvimento consubstancia-se no plano económico. Este plano passa a assumir um papel autónomo, separado da política, da moral e da religião, pois a liberdade individual é, antes de mais, uma liberdade económica, através da qual o sujeito pode exercer a sua individualidade criativa, que tende ao auto-aperfeiçoamento pessoal e monetário – tal como Locke aponta, “o homem é proprietário do fruto do seu trabalho” (TODOROV, p. 97). Para proteger e realçar a liberdade do indivíduo, o neoliberalismo defende uma intervenção mínima do Estado na economia, devendo retirar-se do mercado e privatizar todo o sector empresarial estatal, dado que o mercado necessita apenas de uma auto-regulação, sem entraves externos, para funcionar correctamente, aquilo que Adam Smith define como o carácter de “mão invisível” da economia.

Tal como o comunismo, o neoliberalismo é filho de Pelágio na medida em que concebe uma vontade humana irrestrita, capaz de tudo moldar e tudo submeter. Contudo, as semelhanças não se ficam por aqui. Tal como o comunismo, o neoliberalismo também é filho do cientismo, podendo então falar-se de um “liberalismo «científico»” (TODOROV, p. 104), facto que explica a sua fé inabalável no progresso inevitável, se bem que imoderado e imediatista, da ciência. Se o comunismo é um totalitarismo do colectivo, o neoliberalismo é um totalitarismo do indivíduo, na medida em que nega todas as motivações colectivas que não sejam as de autoconservação da espécie, e condena o sujeito a viver numa constante “lei da selva” e num “salve-se, quem puder”. Na verdade, ambos, neoliberalismo e comunismo, reduzem o homem à sua condição de agente primariamente económico, em detrimento de todas as suas outras vertentes.
 
Milton Friedman (1912-2006)

Esta condição exige, consequentemente, um poder económico sem restrições, levando ao enfraquecimento da lei, em detrimento do contracto privado entre particulares e agentes económicos de relevo, vulgo, empresas. Inevitavelmente, a lógica neoliberal impõe uma flexibilidade e mobilidade no trabalho sem precedentes, minando a protecção laboral preexistente. Esta lógica leva a uma descontextualização do homem, desestruturando as suas redes interpessoais e os mecanismos de identificação e sentido do propósito da vida, indissoluvelmente ligados ao contexto que perdeu. Ademais, as técnicas de gestão, onde se alicerça esta lógica, são uma derivação ideológica neoliberal que, as mais das vezes, se limita a constatar o óbvio e, em vez de levar a uma maior eficiência económica constitui um peso burocrático e um aumento dos gastos com pessoal especializado para a instituir e gerir. As referidas técnicas implicam uma divisão do trabalho em tarefas estanques e impessoais que desumanizam e embrutecem o homem, porque impedem a racionalização e pensamento da acção que cada tarefa requer.

Em terceiro lugar, o populismo, cujas raízes heterogéneas estão associadas ao neoliberalismo, e ligadas ao fascismo. As tendências populistas das democracias modernas procedem da ascensão exacerbada do individualismo nas últimas décadas, particularmente no seguimento do Maio de 1968, palco dos slogans, “é proibido proibir” e “tutto a subito” (“tudo imediatamente”). Esta ascensão levou à erosão da identidade colectiva tradicional, dado que a “libertação sexual, o recuo das religiões e o desmoronamento das utopias” (TODOROV, P. 184) favoreceram a dimensão das escolhas pessoais em detrimento da dissolução das normas comunitárias. Paralelamente, a progressiva globalização da economia, tão cara ao neoliberalismo, ao favorecer as empresas multinacionais, as deslocalizações da produção industrial e a fluidez de capitais, leva ao enfraquecimento do papel do Estado como actor regulador e estabilizador da sociedade e da economia. Estas duas forças conjuntas agem em conformidade, na sociedade moderna, para minar a autoridade tradicional, devido à afirmação da autonomia individual, pois “cada um quer ser julgado em nome das normas a que adere livremente, e não que essas normas lhe sejam impostas de fora” (TODOROV, p. 184). Inevitavelmente, assistimos a dois fenómenos interligados, o aumento dos conflitos intergeracionais e o “desaparecimento do papel regulador da família” (TODOROV, p. 186), que resultam da erosão da autoridade familiar e provocam uma tendência preocupante de fuga para a autoridade policial.
 
Protestos do Maio de 1968

Os políticos oportunistas, ditos populistas, que pretendem tirar partido destes fenómenos sociais desestruturantes, “recusam olhar para além do presente” (TODOROV, p. 193) e, podemos acrescentar, do imediato. Assim, observam a sociedade, constatam a presença cada vez maior de emigrantes, mero sintoma da globalização, e exacerbam-no à qualidade de causa de todos os males, utilizando-o como bode expiatório. É possível concluir, então, que a xenofobia vem sempre de mãos dadas com o populismo. Se, para os nazis, o mal eram os judeus, para os populistas modernos o mal são os estrangeiros, sejam eles muçulmanos, ou os refugiados (grande parte deles praticantes da fé islâmica), na Europa, e, adicionalmente, os povos latino-americanos, nos EUA. Tal como no passado, o neoliberalismo não só não se incomoda com estes movimentos extremistas, como o vemos de mãos dadas com políticos como Orbán, Trump ou Bolsonaro, desde que estes dêem continuidade ao “business as usual”.

Considerações Finais

Estes quatro cavaleiros do apocalipse (se somarmos também a xenofobia) estão já plenamente em acção, e são fonte corrosiva da estrutura democrática. Caso não sejam proactivamente combatidos, são possibilidades reais um retorno de novos totalitarismos e/ou outras formas de governo contrárias à democracia, que em nada beneficiarão o colectivo social. Até lá, podemos estar certos de que o messianismo político gera uma institucionalização da tortura, nos países que dele são alvo (actualmente Síria, Líbia, Afeganistão e Paquistão), e descredibiliza presencialmente a democracia como um sistema hipócrita de interesses predatórios, pois, como afirma Pascal, “quem quer fazer de anjo torna-se besta” (TODOROV, p. 89). Ademais, esta institucionalização da tortura fora de portas pode, dentro de portas, levar ao perigosíssimo estabelecimento colateral de uma sociedade de segurança absoluta. Podemos estar certos, também, que o neoliberalismo gera uma verdadeira tirania dos indivíduos, capazes de acumular fortunas inimagináveis e de se perpetuar no poder infinitamente, dado o controlo que detêm dos média e das plataformas de entretenimento, que moldam a percepção da realidade e a narrativa dos factos. Finalmente, podemos estar, inclusive, certos de que o populismo cria e explora divisões profundas na sociedade, levando a um retorno nefasto dos nacionalismos capazes de provocar conflitos futuros entre nações, pois, como afirma Umberto Eco, o ódio é inclusivo, e acolhedor, sendo, por isso mesmo, uma força de grande poder atractivo[1].

Referências

TODOROV, Tzvetan (2017) – Os Inimigos Íntimos da Democracia. Lisboa: Edições 70.


[1] Consultar “Umberto Eco in conversation with Paul Holdengräber”, minuto 29:40 a 30:50:

sexta-feira, 3 de abril de 2020

"Balzac: O Romance da Sua Vida" de Stefan Zweig




Em Busca de Balzac: Uma Obsessão

Nos derradeiros oito anos da sua existência, atormentado pelo periclitante destino da Europa – primeiro engolida pela voragem dos fascismos, depois pela guerra mundial, a segunda em pouco mais de vinte anos –, Zweig embrenhou-se no trabalho que idealizou toda a vida, uma biografia do monumental Balzac. Na verdade, já por duas vezes tacteara esse empreendimento hercúleo. Primeiramente, enquanto divulgador da literatura francesa em Viena, na juventude, com um ensaio intitulado “Os livros subterrâneos de Balzac”, inserido na colectânea Encontros: Impressões Sobre Livros e Escritores[1]. Posteriormente, no primeiro volume do seu projecto biográfico integrado Os Construtores do Mundo[2], denominado Três Mestres: Balzac, Dickens, Dostoiévski, dedicado aos grandes autores do realismo oitocentista.

Este interesse continuado por Balzac só é perceptível se entendermos a importância deste para a geração de Zweig. Paralelamente ao decadentismo e ao simbolismo, surgiu na Viena fin de siècle um movimento de raiz heterogénea que pretendia combinar os interesses sociais do realismo naturalista com elementos psicológicos, de cariz simbolista, sem esquecer a crescente influência recebida do trabalho de Freud no campo sexual e onírico. A obra de escritores como Arthur Schnitzler, Hugo von Hofmannsthal e, claro está, Stefan Zweig, seria norteada por estes princípios estéticos. Assim sendo, para esta geração, Balzac surgia como o seu primeiro antecessor, o homem capaz de combinar a análise social em larga escala com uma fina análise psicológica para criar todo um mundo ficcional com intrínseca relação de interdependência interpretativa da realidade histórica. Ademais, a importância capital que Balzac, autor de A Mulher de Trinta Anos, relegou ao papel, tantas vezes negligenciado, da mulher, as suas vivências, anseios e frustrações, seria outro ponto de encontro com Zweig, autor de Vinte e Quatro Horas da Vida de Uma Mulher.

Viena no final do século XIX

Devido ao carácter deambulatório dos seus últimos anos de vida – exilando-se preventivamente após a ascensão de Hitler ao poder, primeiro, no Reino Unido, em Londres e Bath; de seguida nos Estados Unidos, em Nova Iorque; e, por fim, no Brasil, em Petrópolis –, a concepção do Balzac acompanhou o percurso de Zweig, estando sujeita a interrupções de vária ordem. As constantes mudanças de domicílio a que se viu obrigado alongaram a escrita, devido a dificuldades em aceder ao material de pesquisa acumulado. Ademais, outros trabalhos mais urgentes vieram desviar a atenção de Zweig, nomeadamente a autobiografia O Mundo de Ontem (1941), e a Novela de Xadrez (1942). À medida que ia escrevendo, Zweig ia acrescentando material à obra, apercebendo-se cada vez mais da complexidade de um personagem histórico tão ecléctico como Balzac. Não é, pois, de estranhar que esta seja a biografia mais extensa que produziu. Contudo, quando estava já perto de a finalizar, a depressão de que sofria há já alguns anos rompeu com a sua vontade de viver, e acabaria por se suicidar, juntamente com a esposa, a 22 de Fevereiro de 1942. A conclusão do Balzac ficaria a cargo do editor, e amigo pessoal de Zweig, Richard Friedenthal, que alinhavou as pontas soltas da obra e terminou os últimos capítulos, publicando-o em 1946. Quatro anos depois, a biografia apareceria publicada em Portugal, pela mão da Livraria Civilização Editora, com tradução de Mário Domingues.

Stefan Zweig e a segunda esposa, Lotte Altmann

Tendo nascido numa época fortemente dominada pelo pensamento freudiano, Zweig prima pela análise psicológica dos seus biografados, traçando um perfil coerente, com base nas obras, cartas, pensamentos e palavras do próprio alvo de estudo. Esta constitui a principal mais-valia do Balzac: O Romance da Sua Vida, que, tal como o próprio subtítulo indica, pretende apresentar a vida do escritor como se de um romance, sob a forma de uma narrativa factual, se tratasse. Paralelamente ao precioso manancial de informação contido na cronologia, índice de obras publicadas e bibliografia actualizada, à época, somos presenteados com um esboço impressivo da evolução pessoal, e literária, do autor de A Comédia Humana.


“Um Honoré de Balzac”

Deste modo, tomamos conhecimento do seu nascimento a 20 de Maio de 1799, em Tours, em pleno alvoroço das campanhas napoleónicas, no seio de uma família da pequena burguesia, em franca ascensão social devido ao lucrativo comércio dos fornecimentos ao Grande Armée. O pai, Bernard-François Balzac, oriundo de uma família de camponeses, destinado originalmente à vida eclesiástica, abandonando-a, durante a Revolução, em prol de uma posição ascendente na Comuna revolucionária. A mãe, Anne Charlotte Sallambier, filha de uma família da pequena burguesia ligada à banca, nomeadamente ao Banco Doumerc. As suas origens pequeno-burguesas, em perpétua busca do lucro, alicerçado no trabalho árduo, e a admiração ambiciosa pela grandeza, preocupação transcendental de seus pais, marcarão profundamente Balzac. Sobretudo a mãe, célebre pelo controlo mesquinho de todas as despesas até ao último sou (a mais baixa unidade monetária francesa no século XIX), bem como pelas sucessivas tentativas de gestão da vida pessoal de Honoré, fá-lo afirmar: “minha mãe é a causa de todas as desgraças da minha vida” (ZWEIG, p. 17).

Balzac na juventude, por Achille Devéria (1820)

A busca pela independência financeira face à família cedo se evidenciou na vida de Balzac. Após terminar o bacharelato em Direito, vai trabalhar como notário em diversas casas comerciais. Contudo, as suas sensibilidades artísticas revoltam-se contra o ofício metódico e árido dos cartórios, fazendo Honoré afirmar, “se eu aceito um emprego, estou perdido”, isto porque, crê que se tornará “um caixeiro, uma máquina, um cavalo de circo, que dá as suas trinta ou quarenta voltas, bebe, come e dorme a horas determinadas”; sobretudo, tal como a Kafka, é a mediocridade de tal vida que o atormenta, “serei como toda a gente”, confessa (ZWEIG, p. 48). Surge então uma vontade, uma ânsia, de adquirir fortuna, que se manifestará ao longo de toda a sua vida, com o intuito de o libertar daquilo que considera ser a escravatura do trabalho regular mundano.

Após a concepção de uma tragédia falhada, sua primeira obra literária, em 1820, o Cromwell, Balzac envereda pelo romance, doravante o seu género ficcional de eleição, de forte inspiração walpoliana, com elementos baseados no gótico de Ann Radcliffe, muito em voga junto do público de então, com o único intuito de enriquecer. Como tal empreendimento não fosse suficientemente lucrativo, tenta diversificar as suas fontes de rendimento através de um malogrado investimento na edição das obras completas de La Fontaine e Molière em volumes únicos ilustrados. Optimista inveterado, decide criar, então, uma tipografia, para compensar as perdas do anterior investimento, seguro de que a actividade editorial é o novo filão de ouro. Quando também a tipografia falha, devido à sua gestão megalómana e desproporcionada, volta uma vez mais à liça, desta feita criando uma fundição de tipos. Dado que a editora e a tipografia faliram, será a produção de tipos de letras de chumbo, para as casas tipográficas, que o irá salvar. Inevitavelmente, esta terceira via falha redondamente, deixando-o com uma dívida que ascendia aos 100 mil francos e transformando-o num especialista na Arte de Pagar as Suas Dívidas e de Satisfazer os Seus Credores Sem Gastar Um Cêntimo, ensaio publicado na sequência da sua falência tripartida.

Balzac na maturidade (1840)

Todavia, nem mesmo isto impedirá Balzac de, em momentos posteriores, tentar um enriquecimento fácil. Primeiro virá a aposta no jornalismo, em 1836, através do periódico legitimista La Chronique de Paris, com o fito de auferir dividendos políticos. 1838 verá Balzac aventurar-se na especulação imobiliária, em Sèvres, antecipando a construção da linha de caminhos-de-ferro Paris-Versalhes; bem como na tentativa de exploração das antigas minas romanas de prata da Sardenha. Por fim, apostará, ainda, entre 1841-42, na produção teatral em larga escala, com as peças: Vautrin, Les Ressources de Quinola, Pamélia Giraud e Le Faisseur (Mercadet). Escusado será dizer que, em todos estes projectos, Balzac viu as suas expectativas goradas.


A caminho de A Comédia Humana

Chegado aos 29 anos, olha em perspectiva a sua vida, repleta de grandes intentos falhados, e apercebe-se da inutilidade do seu multifacetado labor. Decide, então, servir-se de toda a experiência de vida acumulada, de todas as agruras por que passou, de todas as pessoas que conheceu, transversais aos diversos estratos sociais, de todas as múltiplas existências que observou, como combustível para aquilo que é a sua verdadeira vocação, a produção literária. Sempre megalómano, Balzac compara-se a Napoleão e afirma, “concluirei com a pena o que ele iniciou com a espada” (ZWEIG, p. 107). Tem agora uma missão, e não recuará perante nada para a concluir, “ser historiador da sua época, psicólogo e fisiologista, pintor e médico, juiz e poeta deste monstruoso organismo que se chama Paris, França, o Mundo” (ZWEIG, p. 119).

Abandonando o romance gótico, envereda pelo romance histórico, ao estilo de Walter Scott, com Les Chouans, que retrata a revolta monárquica anti-Consolado de 1799. Segue-se um estudo ensaístico do casamento, La Physiologie du Mariage, que lhe granjeará fama, a nível nacional, da noite para o dia. São os primeiros passos de uma produção incessante de cerca de dezanove anos em direcção a um projecto que tomará forma a cada novo romance, a cada nova novela, a cada novo conto e ensaio analítico e filosófico, A Comédia Humana. Progressivamente, o estilo narrativo de Balzac aprimora-se, baseado numa grande capacidade de observação do mundo envolvente, usando como lastro todas as suas experiências passadas, as vividas, e as outras, tantas, imaginadas, caminhando em direcção a um realismo cada vez menos romantizado, porque cada vez mais fidedigno. Será esta a essência de A Comédia Humana, com a qual funda, de uma penada, um novo movimento literário, o realismo. 

1ª Ed. de La Comédie Humaine em 20 volumes (1842-1855)

No prefácio à primeira edição da obra, afirma que “a sociedade francesa devia ser o verdadeiro historiador e eu apenas o seu secretário”. O seu propósito será o de “escrever a história esquecida por tantos historiadores, a dos costumes”. Com vista a alcançar tal intento, é necessário, pois, elaborar um “inventário dos vícios e virtudes, reunindo os principais feitos das paixões, escolhendo os principais acontecimentos da sociedade, compondo tipos pela junção de traços de vários caracteres congéneres” (ZWEIG, pp. 387-88). Para a publicação deste monumento literário, o mais extenso da história, será necessário o apoio tripartido dos editores Dubochet, Furne e Hetzel, após contrato firmado a 14 de Abril de 1842. Reunindo quase todas as suas obras precedentes, revistas para melhor se harmonizarem com um propósito agregador mais vasto, La Comédie Humaine encontra-se dividida em três partes: “Estudos de Costumes no Século XIX”, subdivididos em “Cenas da Vida Privada”, “Cenas da Vida de Província”, “Cenas da Vida Parisiense”, “Cenas da Vida Política”, “Cenas da Vida Militar”, “Cenas da Vida de Aldeia”; “Estudos Filosóficos” e “Estudos Analíticos”.

Balzac envergando a sua cógula de trabalho, retrato de Boulanger (1836)

Segundo um plano gizado em 1838, Balzac pretende que os “Estudos de Costumes” representem todas as facetas do social, “sem que nenhuma situação da vida, nenhuma fisionomia, nenhum carácter de homem ou mulher, nenhuma maneira de viver, nenhuma profissão, nenhuma zona social, nenhuma região francesa, nem o que quer que seja da infância, da velhice, da idade madura, da política, da justiça, da guerra, seja esquecido”. Estabelecida a base, isto é, os efeitos do problema social, é altura de se estudarem as suas causas. Se nos “Estudos de Costumes” estudava “os sentimentos e a sua actuação, a vida e as suas consequências”, nos “Estudos Filosóficos” debruçar-se-á sobre o “porquê dos sentimentos, e «sobre o quê» se fundamenta a vida; qual é a parte, quais as condições além das quais nem a sociedade, nem o homem existem”. “Depois dos efeitos e das causas devem procurar-se os princípios”, assim avalia a utilidade dos “Estudos Analíticos”, nos quais tenta discernir a autoria de todos os processos sociais (ZWEIG, p. 212).

Bengala de Balzac, inspiradora do romance La Canne de Monsieur de Balzac

Tão impressionante quanto a dimensão gigantesca deste projecto literário, são as condições em que foi levado a cabo. Presa de uma incessante necessidade de se elevar socialmente, Balzac tinha por hábito rodear-se de luxos e de extravagâncias que chocavam pelo exagero. São disso prova a sua bengala de castão de ouro cravejado de pedras preciosas, famosa em toda a Paris, os fatos dos melhores alfaiates, as residências luxuosamente decoradas, e as colecções de antiguidades que acumulou. Semelhantes exageros vieram apenas engrossar as suas dívidas, que já eram substanciais, dados os desastres financeiros prévios. Contudo, até destas condições adversas Balzac foi capaz de tirar proveito, pois, tal como o próprio confessa, “ as minhas melhores inspirações brilharam sempre nas horas de extrema angústia” (ZWEIG, p. 192). Assim, para antecipar os lucros com a publicação das suas obras e tentar cumprir as exigências dos credores, vê-se forçado a escrever a um ritmo alucinante. Um dia na vida de Balzac continha, frequentemente, jornadas de dezasseis horas de trabalho. Levantando-se à meia-noite, trabalhava sem interrupções, até às 8h da manhã, na obra que tivesse em mãos. Após pausa para pequeno-almoço, das 9h às 12h dedicava-se à revisão de provas tipográficas, dos capítulos enviados para o prelo no dia anterior, que, não raras vezes, eram alterados ao ponto de requererem nova impressão. Após um almoço leve, o espaço entre as 13h e as 17h era dedicado à correspondência, fosse ela de cariz particular, ou de negócios, bem como à escrita de ensaios e artigos de jornal. Não raras vezes, entre as 17h e as 20h, dedicava-se a pequenas visitas ou recepções sociais, deixando-o, apenas, com quatro horas de repouso.

Provas tipográficas de Os Funcionários, corrigidas por Balzac

Depois de todos os seus empreendimentos comerciais e financeiros falharem, Balzac, o “químico da vontade”, segundo a denominação de Zweig (ZWEIG, p. 26), pretendeu orientar a sua vida pela fórmula, “uma mulher e uma fortuna”. Ocupado com a concepção da sua interminável A Comédia Humana, ainda arranjou tempo para se relacionar com as aristocratas, senhora de Berny e condessa Guidoboni-Visconti, que lhe apararam vários dos desastres financeiros mais significativos. Não se deixando toldar por algo tão pouco lucrativo como o amor, tenta contrair matrimónio com mulheres abastadas, nomeadamente com mademoiselle Trumilly e com a baronesa Deurbroucq. Mas até mesmo o maquiavélico amoroso cai nas malhas que tanto tentou tecer para outras, enamorando-se pela condessa polaca Ewelina Hanska. Ávida leitora de Balzac, a própria condessa enceta correspondência com o seu ídolo literário e os dois iniciam uma relação platónica, imune à longa distância que os separa e ao casamento dela. O matrimónio posterior com a condessa, algum tempo após a morte do seu esposo, foi o coroar de todas as aspirações de Balzac: a relação amorosa oficializada, uma bela mulher aristocrática, e uma fortuna a acompanha-la em dote.

Ewelina Hanska (1805-1882)

Seria, todavia, solo de pouca dura. Quando a morte o apanhou, cinco meses depois, a 18 de Agosto de 1850, foi encontrada uma lista que continha a totalidade dos seus planos literários. Das 144 obras planeadas, apenas 91 foram terminadas, deixando de lado todo um manancial parcialmente perceptível através da consulta dos seus títulos. Assim:

“O primeiro romance deveria intitular-se As Crianças, o segundo e o terceiro Um Pensionato de Meninas e Um Internato de Rapazes de Liceu; o mundo do teatro teria o seu volume; a diplomacia, os ministérios e os sábios, as eleições e as manobras dos partidos na província e na cidade deviam surgir com todas as suas técnicas. Em mais de doze romances, dos quais só foi escrito Les Chouans, devia ser cantada a Ilíada do exército francês durante a época de Napoleão: os franceses no Egipto, as batalhas de Aspern e de Wagram, os ingleses no Egipto, em Moscovo e Leipzig, a campanha da França até os pontões e os soldados franceses no cativeiro. Ao lavrador seria dedicado um volume, ao juiz outro e um terceiro ao inventor. E, acima destes estudos analíticos, uma Pathologie de la vie sociale, uma Anatomie des Corps enseignants e um Dialogue philosophique et politique sur la perfection du XIXe siècle” (ZWEIG, pp. 389-90).




Apreciações Finais

Todavia, tal como todas as biografias, também a de Zweig tem os seus pontos menos positivos. Em primeiro lugar, a perspectiva psicológica de análise do biografado, que tanto seduz nesta obra, constitui, por vezes, um factor negativo. Não raras vezes Zweig emite apressadamente juízos de valor, para os quais não apresenta documentação que o suporte. Exemplo disso é a crítica à condessa Hanska, por não estar presente no momento do falecimento de Balzac, esquecendo-se de mencionar, tal como demonstra André Maurois em Prometeu ou a Vida de Balzac, a sua assiduidade junto do leito do esposo nas semanas antecedentes. Em segundo lugar, o constante recurso de Zweig por uma explicação biográfica das obras balzaquianas reduz a liberdade criativa do autor e não tem em conta as suas opções artísticas. Por último, provavelmente devido ao estado incompleto do Balzac aquando da morte de Stefan, os excertos e transcrições epistolares e ficcionais utilizados nunca são devidamente referenciados, o que dificulta a verificação e confrontação de fontes. A título de amostra, quando Balzac se queixa da mãe (p. 17), fá-lo numa carta à senhora Hanska, mas não sabemos nem a data, nem a localização da fonte primária ou secundária; e, quando fala dos seus planos para A Comédia Humana (p. 212), numa carta de 26 de Outubro de 1838, não nos é dito a quem é dirigida e, claro, muito menos a sua proveniência.



Referências


ZWEIG, Stefan (1971) – Balzac: O Romance da Sua Vida. 4.ª ed. Trad. de Mário Domingues. Porto: Livraria Civilização Editora.

MAUROIS, André (1967) Prometeu ou A Vida de Balzac. Trad. Augusto Abelaira. Lisboa: Editorial Estúdios Cor.



[1] ZWEIG, Stefan (1938) – Encontros: Impressões sobre Livros e Escritores. Trad. de Maria de Castro Henriques Osswald. Porto: Livraria Civilização Editora.
[2] O segundo volume é dedicado ao Combate com o Demónio: Hölderlin, Kleist, Nietzsche; o terceiro aos Três Poetas da Própria Existência: Casanova, Stendhal, Tolstói; e o quarto à Cura Pelo Espírito: Introdução Geral a Mesmer, Mary Baker-Eddy, Freud.