Mostrar mensagens com a etiqueta Kafka. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Kafka. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 23 de junho de 2021

"Embalando a Minha Biblioteca" de Alberto Manguel


Quando, no Outono de 2000, Alberto Manguel comprou um antigo presbitério de pedra em Mondion[1], perto da cidade de Châtellerault[2], França, pensou ter finalmente encontrado o seu Paraíso. Localizado no bucólico vale do Loire, numa pequena povoação de pouco mais de uma centena de habitantes, o que chamou a atenção de Manguel foi um celeiro degradado no recinto murado do presbitério rural, espaçoso quanto baste para alojar a sua alexandrina biblioteca de 35 a 40 mil livros. Tal como o próprio explica noutra obra, A Biblioteca à Noite, o celeiro foi edificado a partir de um muro que “pertencera a um dos dois castelos que Tristan L’Hermite, ministro de Luís XI de França e famoso pela sua crueldade, construiu para os filhos por volta de 1433” (Manguel, 2016, p. 19)[3]. Foi neste lugar cheio de história que se fixou e pôde expor todos os livros que reuniu ao longo das suas atribuladas errâncias, naqueles que foram os melhores anos da sua vida.

Todavia, até os idílios mais doces têm um fim. Após quinze anos de completude, Manguel foi obrigado a abandonar a França. As razões da saída forçada nunca foram inteiramente reveladas. Podemos apenas intui-las a partir da parca informação que o autor foi deixando escapar junto da imprensa. Paralelamente ao ofício de escritor, Manguel mantém, há vários anos, uma actividade como cronista em vários jornais e publicações periódicas. Segundo uma entrevista dada ao El País[4], devido às suas opiniões contra o presidente conservador Nicolas Sarkozy (2007-2012), começou a ser alvo de uma verdadeira perseguição burocrática por parte do Estado francês. Seguindo práticas que não envergonhariam os burocratas de O Processo de Kafka, os seus congéneres gauleses passaram a exigir a Manguel documentos comprovativos da compra de cada volume da sua biblioteca. As consequências do incumprimento desta exigência são desconhecidas, mas adivinham-se nas entrelinhas da classificação de Alberto de tal procedimento como “o lado sombrio do cartesianismo”[5].

 

O presbitério e a biblioteca de Mondion


Após obter ajuda de vários amigos na catalogação da sua preciosa colecção, Manguel partiu de Mondion rumo a Nova Iorque com a biblioteca sepultada em caixas. Nessa viagem sem retorno levou consigo a experiência traumática de embalar os seus milhares de livros, que se entrevê nas linhas, “ali parado a fitar a minha biblioteca vazia, senti o peso da ausência num grau quase insuportável” (Manguel, 2018, p. 37)[6], que seria o mote para a obra homónima. Tomando à letra uns versos da Odisseia de Homero, que o próprio cita a dada altura, “os deuses fiaram a destruição para os homens para que também os vindouros tivessem tema para os seus cantos” (Manguel, 2018, p. 39), Manguel metamorfoseará a queda da Arcádia francesa num belo hino aos livros, à literatura e ao pensamento, oferecendo-o ao leitor para a sua apreciação.

A inspiração modelar para esta obra advém do ensaio de Walter Benjamin, Desembalar a Minha Biblioteca: Um Discurso Acerca da Arte de Coleccionar (1931). Neste opúsculo, Benjamin reflecte sobre os livros e, sobretudo, o carácter e a mentalidade dos seus coleccionadores, sejam os amantes de primeiras publicações de uma obra, sejam aqueles que atribuem significado particular e pessoal a determinados tomos e/ou edições específicas. Partindo do ponto de vista inverso, o embalar da sua biblioteca, Manguel expandirá estas reflexões para outros múltiplos pontos. Tal expansão deve ser vista à luz da matriz do pensamento de Manguel, que a define nos seguintes termos:

 

“sou incapaz de pensar em linha recta. Divago. Sinto que sou incapaz de partir de pontos factuais, continuar por uma rede linear de etapas lógicas até chegar a uma resolução satisfatória. Por maior que seja a minha intenção inicial, perco-me pelo caminho. Paro para admirar uma citação, ouvir uma história; deixo-me distrair por questões alheias ao meu propósito, e sou levado por uma torrente de associações. Começo a falar de uma coisa e acabo a falar de outra. Proponho a mim mesmo pensar, por exemplo, acerca de bibliotecas e a imagem de uma biblioteca ordenada conjura na minha mente desordenada associações inesperadas e inopinadas. Penso em «biblioteca» e sou imediatamente dominado pelo paradoxo de que uma biblioteca mina qualquer ordem que possua, com combinações fortuitas e fraternidades acidentais, e que se eu, ao invés de me ater ao convencional caminho alfabético, numérico ou temático que uma biblioteca estabelece para me guiar, pelo contrário me deixar tentar pelas afinidades não-electivas, o meu objecto deixa de ser a biblioteca e passa a ser o feliz caos do mundo que a biblioteca tenciona ordenar. Ariadne transformou o labirinto num caminho claro e simples para Teseu; a minha mente transforma o caminho simples num labirinto” (Manguel, 2018, p. 16).

 

Assim sendo, somos presenteados com uma verdadeira cornucópia de cogitações que polvilham a obra vindas das mais diversas fontes de inspiração e direcção. Neste sentido, e dada a sua ligação seminal a Jorge Luís Borges, Manguel disserta sobre o teor da tradução e sua validade segundo o grande autor argentino, bem como o seu credo literário e as influências da cultura e literatura judaicas na sua obra. Ademais, num ponto inicial, Alberto não resiste a traçar os indícios daquilo que chama a “ansiedade de estarmos rodeados pelas palavras e pelos rostos dos outros” (Manguel, 2018, p. 24), isto é, o fundamento e força motriz das redes sociais, a partir de indícios na obra de autores tão diversos como Petrónio; Du Fu, poeta chinês do século VIII; Al-Mutanabi, poeta árabe do século X; Petrarca; Goethe; Pushkin; ou Verne. De passagem, revela-nos a inspiração para O Estranho Caso do Dr. Jekyll e de Mr. Hyde, de Robert Louis Stevenson; do Dom Quixote, de Cervantes; de Madame Bovary, de Flaubert; e de Fahrenheit 451, de Ray Bradbury.

Posteriormente, Manguel propõe, em primeiro lugar, uma desconstrução da noção, de origem medieval, de que o sofrimento possa ser a base do processo criativo; e em segundo lugar, uma reflexão sobre a incapacidade de completa captação de sentido do mundo, pois – glosando Platão – tudo o que “pomos em palavras são as sombras das sombras, e todos os livros confessam a impossibilidade de apreender inteiramente seja lá o que for que a nossa experiência agarra” (Manguel, 2018, p. 68). Associada a esta impossibilidade está o carácter mutável da leitura ao longo da nossa vida, que cambia a cada nova releitura. Alberto conclui, assim, que a literatura é uma matéria em perene interpretação e reinterpretação. Este facto não pode ser dissociado do teor primacial e definidor da linguagem, da língua no pensamento humano, pois, como relembra, “somos as línguas que falamos” (Manguel, 2018, p. 109). Ora, se a língua nos define, e molda o nosso pensamento, então os dicionários apresentam-se como biografias não só dessa mesma língua como dos seus falantes.

Por fim, Manguel embarca numa pertinente meditação sobre a permeabilidade da literatura no pensamento e na acção do Homem. Através de várias inferências, Alberto identifica a centralidade das narrativas, das histórias nas sociedades humanas como agregadoras e criadoras de sentido da vida e do mundo. Assim sendo, desenvolve o conceito do papel cívico da literatura como seu propósito intrínseco. Para Manguel, a literatura pode funcionar como a memória testemunhal da nossa sociedade – seja da ambição da imortalidade da alma, seja da recordação das atrocidades do passado, ou ainda da lembrança de que há esperança mesmo nas piores situações –, uma espécie de repositório das experiências, sensações, pensamentos, desejos e propósitos humanos, individuais e colectivos. Semelhante função não pode deixar de ser subversiva, na medida em que interpõe a reflexão como contraponto da acção, acto contrário aos desígnios de diversos governos e grandes corporações internacionais. Para este efeito, afigura-se capital o papel da biblioteca nacional de cada país como a sede de tal repositório, que permita estabelecer pontos de referência para “fazer melhores perguntas e imaginar novos modelos sociais mais justos e mais equitativos” (Manguel, 2018, p. 138).

As cogitações podem ser multiformes, contudo, todas partem de um ponto central: a vida de Manguel. Toda a ensaística do autor – veja-se Uma História da Leitura, A Biblioteca à Noite ou Uma História da Curiosidade – é intimista. No entanto, Embalando a minha Biblioteca é, provavelmente, o seu livro mais pessoal. A cada capítulo, Manguel toma sempre como ponto de referência um evento da sua vida, seja o acto condoído de empacotar os livros das estantes de Mondion, seja uma memória de infância ou dos encontros com Borges ou dos momentos deleitosos do idílio francês. Mas também, ainda, a sua longa actividade como leitor em grandes casas editoriais em Paris e Londres, e editor em Milão e no Taiti; o cargo de director da Biblioteca Nacional da Argentina; e, como não podia deixar de ser, as suas vastas leituras. Todos estes eventos servem de alimento à mente em constante ebulição de Manguel, que os transforma em pertinentes e, às vezes, desconcertantes pontos de interrogação. A dada altura, o autor afirma que é possível traçar a biografia de alguém através da sua biblioteca, o seu conteúdo, recorrência de temas e ausências. O mesmo pode ser dito da ensaística de Manguel. As suas obras de não-ficção, particularmente Embalando a Minha Biblioteca, contam a sua biografia literária, intelectual e, tantas vezes, pessoal.

Não obstante, semelhante ausência de pensamento sistemático, mesmo que suportado por referenciais de apoio, pode asseverar-se caótico e aleatório, tal como o autor não tem pejo em confidenciar, como vimos acima. Podemos, num primeiro impulso, justificar este caos com a imensidão das leituras de Alberto, perdoando-lhe porque muito leu, à imagem do perdão de Jesus Cristo a Maria Madalena porque muito amou. Todavia, num momento posterior, é possível equacionar se não é esse o carácter da literatura. Isto é, não é intrínseco à ficção narrativa um conjunto de reflexões elaboradas pelos personagens, com base nas suas vivências e experiências, aparentemente desconexas mas contendo um fio condutor interno que deve ser assimilado e interpretado pelo leitor? Talvez a chave para o entendimento do pensamento associativo de Manguel seja isso mesmo, a literatura, e o seu pensamento seja literário. No fundo, Manguel reconhece um dos princípios básicos do ser humano, a sua imutabilidade, e as suas cogitações não são mais do que o reequacionar e reformular de velhas questões que assombram o Homem pelo menos desde o início da civilização, o que não põe em causa a sua validade.

Na última página do livro, Manguel equaciona qual o futuro da sua biblioteca sepultada em caixas. Hoje, cinco anos passados, sabemos a resposta. Em plena Feira do Livro de Lisboa de 2020, o presidente incumbente do município, Fernando Medina, anunciou ter chegado a acordo com Alberto Manguel para a doação da sua biblioteca à capital portuguesa e consequente instalação da mesma no Palacete dos Marqueses de Pombal. Juntamente com a abertura desta nova biblioteca municipal virá a criação do Centro de Estudos de História da Leitura. A abertura está marcada, em princípio, para o ano de 2022, com o autor argentino como seu director[7]

 

Anúncio do estabelecimento em Lisboa da biblioteca de Manguel

 



[1] Jornal i de 11/4/2018, artigo de José Cabrita Saraiva. Disponível em: https://ionline.sapo.pt/artigo/607857/alberto-manguel-a-arte-de-sepultar-condignamente-uma-biblioteca-?seccao=Mais_i [Consultado a 14-6-2021].

[2] O Jornal Económico de 12/9/2020, artigo de António Freitas de Sousa. Disponível em:

https://jornaleconomico.sapo.pt/noticias/alberto-manguel-doa-os-seus-livros-deixou-de-os-amar-ou-quer-ser-livre-outra-vez-635652 [Consultado a 14-6-2021].

[3] MANGUEL, Alberto (2016) – A Biblioteca à Noite. Trad. de Rita Almeida Simões. Lisboa: Edições Tinta-da-China.

[4] El País de 8/9/2020, artigo de Felipe Sánchez. Disponível em:

https://elpais.com/cultura/2020-09-07/alberto-manguel-dona-a-lisboa-los-40000-libros-de-su-biblioteca.html [Consultado a 14-6-2021].

[5] Diário de Notícias de 7/10/2015, artigo de Ana Sousa Dias. Disponível em:

https://www.dn.pt/artes/desde_adao_e_eva_todos_somos_exilados_refugiados_nomadas_4819921.html [Consultado a 14-6-2021].

[6] MANGUEL, Alberto (2018) – Embalando a Minha Biblioteca. Trad. de Rita Almeida Simões. Lisboa: Edições Tinta-da-China.

[7] Público de 5/9/2020, artigo de Luís Miguel Queirós. Disponível em:

https://www.publico.pt/2020/09/05/culturaipsilon/noticia/alberto-manguel-vai-doar-biblioteca-camara-lisboa-1930434 [Consultado a 14-6-2021].

sexta-feira, 3 de abril de 2020

"Balzac: O Romance da Sua Vida" de Stefan Zweig




Em Busca de Balzac: Uma Obsessão

Nos derradeiros oito anos da sua existência, atormentado pelo periclitante destino da Europa – primeiro engolida pela voragem dos fascismos, depois pela guerra mundial, a segunda em pouco mais de vinte anos –, Zweig embrenhou-se no trabalho que idealizou toda a vida, uma biografia do monumental Balzac. Na verdade, já por duas vezes tacteara esse empreendimento hercúleo. Primeiramente, enquanto divulgador da literatura francesa em Viena, na juventude, com um ensaio intitulado “Os livros subterrâneos de Balzac”, inserido na colectânea Encontros: Impressões Sobre Livros e Escritores[1]. Posteriormente, no primeiro volume do seu projecto biográfico integrado Os Construtores do Mundo[2], denominado Três Mestres: Balzac, Dickens, Dostoiévski, dedicado aos grandes autores do realismo oitocentista.

Este interesse continuado por Balzac só é perceptível se entendermos a importância deste para a geração de Zweig. Paralelamente ao decadentismo e ao simbolismo, surgiu na Viena fin de siècle um movimento de raiz heterogénea que pretendia combinar os interesses sociais do realismo naturalista com elementos psicológicos, de cariz simbolista, sem esquecer a crescente influência recebida do trabalho de Freud no campo sexual e onírico. A obra de escritores como Arthur Schnitzler, Hugo von Hofmannsthal e, claro está, Stefan Zweig, seria norteada por estes princípios estéticos. Assim sendo, para esta geração, Balzac surgia como o seu primeiro antecessor, o homem capaz de combinar a análise social em larga escala com uma fina análise psicológica para criar todo um mundo ficcional com intrínseca relação de interdependência interpretativa da realidade histórica. Ademais, a importância capital que Balzac, autor de A Mulher de Trinta Anos, relegou ao papel, tantas vezes negligenciado, da mulher, as suas vivências, anseios e frustrações, seria outro ponto de encontro com Zweig, autor de Vinte e Quatro Horas da Vida de Uma Mulher.

Viena no final do século XIX

Devido ao carácter deambulatório dos seus últimos anos de vida – exilando-se preventivamente após a ascensão de Hitler ao poder, primeiro, no Reino Unido, em Londres e Bath; de seguida nos Estados Unidos, em Nova Iorque; e, por fim, no Brasil, em Petrópolis –, a concepção do Balzac acompanhou o percurso de Zweig, estando sujeita a interrupções de vária ordem. As constantes mudanças de domicílio a que se viu obrigado alongaram a escrita, devido a dificuldades em aceder ao material de pesquisa acumulado. Ademais, outros trabalhos mais urgentes vieram desviar a atenção de Zweig, nomeadamente a autobiografia O Mundo de Ontem (1941), e a Novela de Xadrez (1942). À medida que ia escrevendo, Zweig ia acrescentando material à obra, apercebendo-se cada vez mais da complexidade de um personagem histórico tão ecléctico como Balzac. Não é, pois, de estranhar que esta seja a biografia mais extensa que produziu. Contudo, quando estava já perto de a finalizar, a depressão de que sofria há já alguns anos rompeu com a sua vontade de viver, e acabaria por se suicidar, juntamente com a esposa, a 22 de Fevereiro de 1942. A conclusão do Balzac ficaria a cargo do editor, e amigo pessoal de Zweig, Richard Friedenthal, que alinhavou as pontas soltas da obra e terminou os últimos capítulos, publicando-o em 1946. Quatro anos depois, a biografia apareceria publicada em Portugal, pela mão da Livraria Civilização Editora, com tradução de Mário Domingues.

Stefan Zweig e a segunda esposa, Lotte Altmann

Tendo nascido numa época fortemente dominada pelo pensamento freudiano, Zweig prima pela análise psicológica dos seus biografados, traçando um perfil coerente, com base nas obras, cartas, pensamentos e palavras do próprio alvo de estudo. Esta constitui a principal mais-valia do Balzac: O Romance da Sua Vida, que, tal como o próprio subtítulo indica, pretende apresentar a vida do escritor como se de um romance, sob a forma de uma narrativa factual, se tratasse. Paralelamente ao precioso manancial de informação contido na cronologia, índice de obras publicadas e bibliografia actualizada, à época, somos presenteados com um esboço impressivo da evolução pessoal, e literária, do autor de A Comédia Humana.


“Um Honoré de Balzac”

Deste modo, tomamos conhecimento do seu nascimento a 20 de Maio de 1799, em Tours, em pleno alvoroço das campanhas napoleónicas, no seio de uma família da pequena burguesia, em franca ascensão social devido ao lucrativo comércio dos fornecimentos ao Grande Armée. O pai, Bernard-François Balzac, oriundo de uma família de camponeses, destinado originalmente à vida eclesiástica, abandonando-a, durante a Revolução, em prol de uma posição ascendente na Comuna revolucionária. A mãe, Anne Charlotte Sallambier, filha de uma família da pequena burguesia ligada à banca, nomeadamente ao Banco Doumerc. As suas origens pequeno-burguesas, em perpétua busca do lucro, alicerçado no trabalho árduo, e a admiração ambiciosa pela grandeza, preocupação transcendental de seus pais, marcarão profundamente Balzac. Sobretudo a mãe, célebre pelo controlo mesquinho de todas as despesas até ao último sou (a mais baixa unidade monetária francesa no século XIX), bem como pelas sucessivas tentativas de gestão da vida pessoal de Honoré, fá-lo afirmar: “minha mãe é a causa de todas as desgraças da minha vida” (ZWEIG, p. 17).

Balzac na juventude, por Achille Devéria (1820)

A busca pela independência financeira face à família cedo se evidenciou na vida de Balzac. Após terminar o bacharelato em Direito, vai trabalhar como notário em diversas casas comerciais. Contudo, as suas sensibilidades artísticas revoltam-se contra o ofício metódico e árido dos cartórios, fazendo Honoré afirmar, “se eu aceito um emprego, estou perdido”, isto porque, crê que se tornará “um caixeiro, uma máquina, um cavalo de circo, que dá as suas trinta ou quarenta voltas, bebe, come e dorme a horas determinadas”; sobretudo, tal como a Kafka, é a mediocridade de tal vida que o atormenta, “serei como toda a gente”, confessa (ZWEIG, p. 48). Surge então uma vontade, uma ânsia, de adquirir fortuna, que se manifestará ao longo de toda a sua vida, com o intuito de o libertar daquilo que considera ser a escravatura do trabalho regular mundano.

Após a concepção de uma tragédia falhada, sua primeira obra literária, em 1820, o Cromwell, Balzac envereda pelo romance, doravante o seu género ficcional de eleição, de forte inspiração walpoliana, com elementos baseados no gótico de Ann Radcliffe, muito em voga junto do público de então, com o único intuito de enriquecer. Como tal empreendimento não fosse suficientemente lucrativo, tenta diversificar as suas fontes de rendimento através de um malogrado investimento na edição das obras completas de La Fontaine e Molière em volumes únicos ilustrados. Optimista inveterado, decide criar, então, uma tipografia, para compensar as perdas do anterior investimento, seguro de que a actividade editorial é o novo filão de ouro. Quando também a tipografia falha, devido à sua gestão megalómana e desproporcionada, volta uma vez mais à liça, desta feita criando uma fundição de tipos. Dado que a editora e a tipografia faliram, será a produção de tipos de letras de chumbo, para as casas tipográficas, que o irá salvar. Inevitavelmente, esta terceira via falha redondamente, deixando-o com uma dívida que ascendia aos 100 mil francos e transformando-o num especialista na Arte de Pagar as Suas Dívidas e de Satisfazer os Seus Credores Sem Gastar Um Cêntimo, ensaio publicado na sequência da sua falência tripartida.

Balzac na maturidade (1840)

Todavia, nem mesmo isto impedirá Balzac de, em momentos posteriores, tentar um enriquecimento fácil. Primeiro virá a aposta no jornalismo, em 1836, através do periódico legitimista La Chronique de Paris, com o fito de auferir dividendos políticos. 1838 verá Balzac aventurar-se na especulação imobiliária, em Sèvres, antecipando a construção da linha de caminhos-de-ferro Paris-Versalhes; bem como na tentativa de exploração das antigas minas romanas de prata da Sardenha. Por fim, apostará, ainda, entre 1841-42, na produção teatral em larga escala, com as peças: Vautrin, Les Ressources de Quinola, Pamélia Giraud e Le Faisseur (Mercadet). Escusado será dizer que, em todos estes projectos, Balzac viu as suas expectativas goradas.


A caminho de A Comédia Humana

Chegado aos 29 anos, olha em perspectiva a sua vida, repleta de grandes intentos falhados, e apercebe-se da inutilidade do seu multifacetado labor. Decide, então, servir-se de toda a experiência de vida acumulada, de todas as agruras por que passou, de todas as pessoas que conheceu, transversais aos diversos estratos sociais, de todas as múltiplas existências que observou, como combustível para aquilo que é a sua verdadeira vocação, a produção literária. Sempre megalómano, Balzac compara-se a Napoleão e afirma, “concluirei com a pena o que ele iniciou com a espada” (ZWEIG, p. 107). Tem agora uma missão, e não recuará perante nada para a concluir, “ser historiador da sua época, psicólogo e fisiologista, pintor e médico, juiz e poeta deste monstruoso organismo que se chama Paris, França, o Mundo” (ZWEIG, p. 119).

Abandonando o romance gótico, envereda pelo romance histórico, ao estilo de Walter Scott, com Les Chouans, que retrata a revolta monárquica anti-Consolado de 1799. Segue-se um estudo ensaístico do casamento, La Physiologie du Mariage, que lhe granjeará fama, a nível nacional, da noite para o dia. São os primeiros passos de uma produção incessante de cerca de dezanove anos em direcção a um projecto que tomará forma a cada novo romance, a cada nova novela, a cada novo conto e ensaio analítico e filosófico, A Comédia Humana. Progressivamente, o estilo narrativo de Balzac aprimora-se, baseado numa grande capacidade de observação do mundo envolvente, usando como lastro todas as suas experiências passadas, as vividas, e as outras, tantas, imaginadas, caminhando em direcção a um realismo cada vez menos romantizado, porque cada vez mais fidedigno. Será esta a essência de A Comédia Humana, com a qual funda, de uma penada, um novo movimento literário, o realismo. 

1ª Ed. de La Comédie Humaine em 20 volumes (1842-1855)

No prefácio à primeira edição da obra, afirma que “a sociedade francesa devia ser o verdadeiro historiador e eu apenas o seu secretário”. O seu propósito será o de “escrever a história esquecida por tantos historiadores, a dos costumes”. Com vista a alcançar tal intento, é necessário, pois, elaborar um “inventário dos vícios e virtudes, reunindo os principais feitos das paixões, escolhendo os principais acontecimentos da sociedade, compondo tipos pela junção de traços de vários caracteres congéneres” (ZWEIG, pp. 387-88). Para a publicação deste monumento literário, o mais extenso da história, será necessário o apoio tripartido dos editores Dubochet, Furne e Hetzel, após contrato firmado a 14 de Abril de 1842. Reunindo quase todas as suas obras precedentes, revistas para melhor se harmonizarem com um propósito agregador mais vasto, La Comédie Humaine encontra-se dividida em três partes: “Estudos de Costumes no Século XIX”, subdivididos em “Cenas da Vida Privada”, “Cenas da Vida de Província”, “Cenas da Vida Parisiense”, “Cenas da Vida Política”, “Cenas da Vida Militar”, “Cenas da Vida de Aldeia”; “Estudos Filosóficos” e “Estudos Analíticos”.

Balzac envergando a sua cógula de trabalho, retrato de Boulanger (1836)

Segundo um plano gizado em 1838, Balzac pretende que os “Estudos de Costumes” representem todas as facetas do social, “sem que nenhuma situação da vida, nenhuma fisionomia, nenhum carácter de homem ou mulher, nenhuma maneira de viver, nenhuma profissão, nenhuma zona social, nenhuma região francesa, nem o que quer que seja da infância, da velhice, da idade madura, da política, da justiça, da guerra, seja esquecido”. Estabelecida a base, isto é, os efeitos do problema social, é altura de se estudarem as suas causas. Se nos “Estudos de Costumes” estudava “os sentimentos e a sua actuação, a vida e as suas consequências”, nos “Estudos Filosóficos” debruçar-se-á sobre o “porquê dos sentimentos, e «sobre o quê» se fundamenta a vida; qual é a parte, quais as condições além das quais nem a sociedade, nem o homem existem”. “Depois dos efeitos e das causas devem procurar-se os princípios”, assim avalia a utilidade dos “Estudos Analíticos”, nos quais tenta discernir a autoria de todos os processos sociais (ZWEIG, p. 212).

Bengala de Balzac, inspiradora do romance La Canne de Monsieur de Balzac

Tão impressionante quanto a dimensão gigantesca deste projecto literário, são as condições em que foi levado a cabo. Presa de uma incessante necessidade de se elevar socialmente, Balzac tinha por hábito rodear-se de luxos e de extravagâncias que chocavam pelo exagero. São disso prova a sua bengala de castão de ouro cravejado de pedras preciosas, famosa em toda a Paris, os fatos dos melhores alfaiates, as residências luxuosamente decoradas, e as colecções de antiguidades que acumulou. Semelhantes exageros vieram apenas engrossar as suas dívidas, que já eram substanciais, dados os desastres financeiros prévios. Contudo, até destas condições adversas Balzac foi capaz de tirar proveito, pois, tal como o próprio confessa, “ as minhas melhores inspirações brilharam sempre nas horas de extrema angústia” (ZWEIG, p. 192). Assim, para antecipar os lucros com a publicação das suas obras e tentar cumprir as exigências dos credores, vê-se forçado a escrever a um ritmo alucinante. Um dia na vida de Balzac continha, frequentemente, jornadas de dezasseis horas de trabalho. Levantando-se à meia-noite, trabalhava sem interrupções, até às 8h da manhã, na obra que tivesse em mãos. Após pausa para pequeno-almoço, das 9h às 12h dedicava-se à revisão de provas tipográficas, dos capítulos enviados para o prelo no dia anterior, que, não raras vezes, eram alterados ao ponto de requererem nova impressão. Após um almoço leve, o espaço entre as 13h e as 17h era dedicado à correspondência, fosse ela de cariz particular, ou de negócios, bem como à escrita de ensaios e artigos de jornal. Não raras vezes, entre as 17h e as 20h, dedicava-se a pequenas visitas ou recepções sociais, deixando-o, apenas, com quatro horas de repouso.

Provas tipográficas de Os Funcionários, corrigidas por Balzac

Depois de todos os seus empreendimentos comerciais e financeiros falharem, Balzac, o “químico da vontade”, segundo a denominação de Zweig (ZWEIG, p. 26), pretendeu orientar a sua vida pela fórmula, “uma mulher e uma fortuna”. Ocupado com a concepção da sua interminável A Comédia Humana, ainda arranjou tempo para se relacionar com as aristocratas, senhora de Berny e condessa Guidoboni-Visconti, que lhe apararam vários dos desastres financeiros mais significativos. Não se deixando toldar por algo tão pouco lucrativo como o amor, tenta contrair matrimónio com mulheres abastadas, nomeadamente com mademoiselle Trumilly e com a baronesa Deurbroucq. Mas até mesmo o maquiavélico amoroso cai nas malhas que tanto tentou tecer para outras, enamorando-se pela condessa polaca Ewelina Hanska. Ávida leitora de Balzac, a própria condessa enceta correspondência com o seu ídolo literário e os dois iniciam uma relação platónica, imune à longa distância que os separa e ao casamento dela. O matrimónio posterior com a condessa, algum tempo após a morte do seu esposo, foi o coroar de todas as aspirações de Balzac: a relação amorosa oficializada, uma bela mulher aristocrática, e uma fortuna a acompanha-la em dote.

Ewelina Hanska (1805-1882)

Seria, todavia, solo de pouca dura. Quando a morte o apanhou, cinco meses depois, a 18 de Agosto de 1850, foi encontrada uma lista que continha a totalidade dos seus planos literários. Das 144 obras planeadas, apenas 91 foram terminadas, deixando de lado todo um manancial parcialmente perceptível através da consulta dos seus títulos. Assim:

“O primeiro romance deveria intitular-se As Crianças, o segundo e o terceiro Um Pensionato de Meninas e Um Internato de Rapazes de Liceu; o mundo do teatro teria o seu volume; a diplomacia, os ministérios e os sábios, as eleições e as manobras dos partidos na província e na cidade deviam surgir com todas as suas técnicas. Em mais de doze romances, dos quais só foi escrito Les Chouans, devia ser cantada a Ilíada do exército francês durante a época de Napoleão: os franceses no Egipto, as batalhas de Aspern e de Wagram, os ingleses no Egipto, em Moscovo e Leipzig, a campanha da França até os pontões e os soldados franceses no cativeiro. Ao lavrador seria dedicado um volume, ao juiz outro e um terceiro ao inventor. E, acima destes estudos analíticos, uma Pathologie de la vie sociale, uma Anatomie des Corps enseignants e um Dialogue philosophique et politique sur la perfection du XIXe siècle” (ZWEIG, pp. 389-90).




Apreciações Finais

Todavia, tal como todas as biografias, também a de Zweig tem os seus pontos menos positivos. Em primeiro lugar, a perspectiva psicológica de análise do biografado, que tanto seduz nesta obra, constitui, por vezes, um factor negativo. Não raras vezes Zweig emite apressadamente juízos de valor, para os quais não apresenta documentação que o suporte. Exemplo disso é a crítica à condessa Hanska, por não estar presente no momento do falecimento de Balzac, esquecendo-se de mencionar, tal como demonstra André Maurois em Prometeu ou a Vida de Balzac, a sua assiduidade junto do leito do esposo nas semanas antecedentes. Em segundo lugar, o constante recurso de Zweig por uma explicação biográfica das obras balzaquianas reduz a liberdade criativa do autor e não tem em conta as suas opções artísticas. Por último, provavelmente devido ao estado incompleto do Balzac aquando da morte de Stefan, os excertos e transcrições epistolares e ficcionais utilizados nunca são devidamente referenciados, o que dificulta a verificação e confrontação de fontes. A título de amostra, quando Balzac se queixa da mãe (p. 17), fá-lo numa carta à senhora Hanska, mas não sabemos nem a data, nem a localização da fonte primária ou secundária; e, quando fala dos seus planos para A Comédia Humana (p. 212), numa carta de 26 de Outubro de 1838, não nos é dito a quem é dirigida e, claro, muito menos a sua proveniência.



Referências


ZWEIG, Stefan (1971) – Balzac: O Romance da Sua Vida. 4.ª ed. Trad. de Mário Domingues. Porto: Livraria Civilização Editora.

MAUROIS, André (1967) Prometeu ou A Vida de Balzac. Trad. Augusto Abelaira. Lisboa: Editorial Estúdios Cor.



[1] ZWEIG, Stefan (1938) – Encontros: Impressões sobre Livros e Escritores. Trad. de Maria de Castro Henriques Osswald. Porto: Livraria Civilização Editora.
[2] O segundo volume é dedicado ao Combate com o Demónio: Hölderlin, Kleist, Nietzsche; o terceiro aos Três Poetas da Própria Existência: Casanova, Stendhal, Tolstói; e o quarto à Cura Pelo Espírito: Introdução Geral a Mesmer, Mary Baker-Eddy, Freud.